Nasceu para nós (T. Merton)


Nasceu para nós
(Thomas Merton, Tempos Litúrgicos, pp. 98-99)     
Cristo nasceu! Nasceu por nós! Nasceu hoje! Porque Natal não é um dia como os outros. É um dia em que, graças a um Sagrado Mistério, se tornou santo e especial. Não é somente mais um dia dentro da monótona rotação do tempo. Hoje a eternidade entra no tempo e o tempo, santificado, é assumido pela eternidade. Hoje Cristo, o eterno Verbo do Pai, que no princípio era com o Pai, no qual todas as coisas foram feitas, por meio do qual todas as coisas subsistem, entra no mundo que Ele criou.
Eis porque a Igreja exulta entre os Anjos, que descem, não apenas para anunciar um fato antigo, que aconteceu há tanto tempo, mas um evento que se realiza hoje, que acontece hoje. Porque, hoje, Deus Pai, faz novas todas as coisas no seu Filho Divino, o nosso Redentor, segundo as suas palavras: “Eis que faço nova todas as coisas” (Ap. 21,5).
Agora então a Igreja sobre a terra se une à Igreja que está nos Céus para cantar um único e mesmo cântico, o novo cântico, o “novum canticum” que o profeta ordenou a todos cantarem quando o mundo fosse redimido por Cristo, de quem, por meio da Revelação, sabia que viria de sua descendência. Quando Davi exclamou: “Cantai um cântico novo ao Senhor” foi o primeiro mestre do coro a entoar os cânticos que a Igreja haveria de cantar neste dia em sua Liturgia. Porque, como disse São Leão Magno: “Hoje, um dia de nova redenção brilha sobre nós, um dia que resgata tudo aquilo que por muito tempo estava perdido, um dia de felicidade sem fim”.
Assim, com o Aleluia de vitória, com o grito triunfante da Páscoa sobre os lábios, a Igreja renova o mistério pascal no qual a morte foi derrotada, o poder diabólico foi vencido para sempre e todo pecado, perdoado: o mistério da morte e ressurreição do Salvador que nasceu para nós neste dia. Hoje a Igreja canta: “Dies santificatus illuxit nobis”, que significa: um dia de salvação, um dia que o mistério santificou, um dia pleno, em que o Poder Divino e Santificador brilha sobre nós. E depois continua: “Aleluia, Aleluia: um dia santificado nos iluminou; vinde, ó pagãos, vinde adorar o Senhor: porque neste dia uma grande luz se acendeu sobre a terra”. A Igreja chama o mundo inteiro à adoração enquanto se prepara com grande solenidade para anunciar as palavras do Evangelho.
Cristo desceu do Céu para ser a nossa luz, a nossa vida. Veio, como Ele mesmo assegurou, para ser a nossa vida, pela qual podemos retornar ao Pai. Cristo hoje nos dá a luz para conhecê-lo no Pai, e para conhecermos a nós mesmos n’Ele, porque, deste modo, conhecendo e possuindo  Cristo , possamos obter a vida eterna com Ele, no Pai: “Porque esta é a vida eterna, que conheçam a ti, único e verdadeiro Deus, e aquele que enviastes, Jesus Cristo” (Jo. 17,3); e agora: “A todos aqueles que lhe acolheram deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo. 1,12).
Só Ele é a nossa luz; abramos, portanto, os olhos para este “Sol nascente”; corramos para acolhê-lo, e todos juntos celebremos o grande mistério do Amor que é o Sacramento da nossa salvação e da nossa união com Cristo. Recebamos Cristo de tal forma, que possamos ser, verdadeiramente, “luz no Senhor”, afim de que Cristo não somente brilhe sobre nós, mas através de nós, e assim, poderemos resplandecer todos juntos na doce luz da Sua Presença no mundo.

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