Sobre Modigliani (após uma exposição)
“Warum gabst du uns die tiefen
Blicke?” [por que, afinal, nos deste os
profundos olhares?] pergunta um verso de Goethe (em tradução de B. Tolentino),
que poderia sintetizar a experiência de estarmos diante das pinturas Amedeo Modigliani
(1884-1920). Certamente impressionam a esculturalidade natural dos retratos, a
sensualidade nada vulgar dos nus, a passagem pela escultura, o surgimento quase
repentino de um estilo próprio e a estranha união do traço moderno com a linha
clássica. E talvez nos comova também a história pessoal do artista, marcada
pela doença que o levou à pintura e à morte, por um talento rico e um bolso
pobre, pelo amor que o pacificou em seus últimos anos de vida e que não encontrou
paz após sua morte. Mas nada parece nos magnetizar mais do que o olhar vazio ou
luminoso de suas figuras. É para lá que o olhar do observador é atraído, embora
as linhas do quadro o levem para outros detalhes da imagem; ali está seu
verdadeiro ponto de fuga, embora o ponto de fuga “técnico” esteja em outro
lugar. Os olhos das figuras de Modigliani deslocam o olhar do observador do centro
real do quadro, para onde as linhas da imagem naturalmente o conduziriam, e se
tornam assim um ponto de fuga simbólico.
Nu reclinado (1917, Staatsgalerie, Stuttgart), um dos mais belos pintados por Modigliani, exemplifica esta ideia:
[Fresco from Pompei, Casa di Venus,
1st century AD]
[Tiziano, Venus de
Urbino, c. 1538]
Por ser mostrada inteira, a
figura está distanciada do observador e sempre se cobre com a mão, uma folha,
uma ponta de veste. Em comparação com o quadro Les Demoiselles d’Avignon
(1907),
no qual Picasso parece esquartejar
a figura feminina mostrando-a em suas formas abstratas e sob diferentes
perspectivas concorrentes, os corpos rosados e sensuais pintados por Modigliani
parecem ser, para o gosto da época, de um tradicionalismo estético quase inaceitável.
Só o aceitaram porque há algo de profundamente moderno nos seus nus reclinados:
o cenário desaparece, a figura feminina não é mostrada inteiramente, o quadro parece
pequeno para conter o corpo, quase como se o pintor estivesse próximo demais de
seu modelo. Outro detalhe: a figura não esconde a região pubiana e olha
calmamente para seu observador, o que causou considerável escândalo na época. É
então que o observador nota algo escultórico naquele aquele corpo aparentemente
natural, nota também que os olhos são sugestivos demais para serem considerados
reais e sugestivos demais para não
serem considerados como o ponto mais importante da imagem. É certo que o olhar do
observador vai e vem nas linhas ondulantes do corpo deitado mas, de alguma
forma, é nos olhos da figura que ele repousa antes de deslizar novamente pelo
quadro.
Outro fator que faz de Modigliani
“Modigliani” não aparece nos nus, mas nos retratos: como se sabe, a figura
humana – sempre pintada por ele com o pescoço alongado, a postura elegante, algo
estática, às vezes com as mãos cruzadas no colo, recolhida em si mesma – muitas
vezes não tem sua pupila pintada. Se em alguns quadros Modigliani pintou olhos
brilhantes, como em Jeune Femme aux yeux bleus (1917)
em outros decidiu pintar apenas
uma ou nenhuma das pupilas.
[Retrato de com gravata preta, 1917, Tóquio, Fujikawa Galleries]
[Retrato de Madame G. van Muyden, 1916-1917, MASP]
Esse pequeno “detalhe” – também
inspirado na estatuária – provoca no observador uma inquietação e um fascínio: uma
impressão de morte e inumanidade une-se a uma sugestão de mistério, uma abertura
para algo além da própria figura.
[Auto-retrato,
1919, MAC-USP]
Enquanto ao mirar o Nu Reclinado de 1917, o olhar do observador
movimenta-se na horizontal e repousa nos grandes olhos da figura; ao observar
os retratos de Modigliani seu olhar move-se num eixo vertical e se concentra no
alto da imagem. E se acontecer de se fixar nos olhos – turvos ou luminosos – da
figura retratada, talvez o observador contemple, por um instante, a si mesmo, inquieto
e fascinado pelo mistério da beleza humana.
[J. P. Perez, junho de 2012]







